Por Priscilla Andrade Araujo, fundadora da Kainel
Se alguém tivesse me perguntado, durante boa parte da minha vida, se eu tinha depressão, eu responderia que não. Diria apenas que sempre fui assim. Sempre me senti diferente e não me encaixava no mundo.
Sempre achei que havia algo errado comigo — e nunca imaginei que esse “algo” tinha nome.
Como a depressão me acompanhava desde criança, eu não conseguia enxergá-la como uma doença. Para mim, era simplesmente quem eu era.
Talvez você esteja vivendo exatamente isso hoje.
Talvez você também ache que nasceu assim — e que nunca vai mudar.
Eu já pensei da mesma forma.
E eu estava errada.
Eu não tinha lugar.
Desde pequena, carregava a sensação de não pertencimento.
Passei muitos anos achando que eu incomodava as pessoas pelo simples fato de existir ou estar presente no mesmo lugar que elas.
O desejo de morrer, muitas vezes, fez parte da minha vida desde criança.
Já na minha fase adulta, desenvolvi fobia social e isso agravou ainda mais o quadro de depressão que eu enfrentava.
Minha identidade estava completamente distorcida, porque eu acreditava nas mentiras que a depressão me contava a meu respeito e sobre os outros.
Passei longos períodos sem conseguir sair da cama.
Quando eu raramente saía, eu fingia para as pessoas que estava tudo bem, mas por dentro eu só sobrevivia.
Mesmo em sofrimento constante, passei muitos anos evitando buscar ajuda.
Quando mais um diagnóstico apareceu
Em 22 de junho de 2022, enquanto eu cozinhava, meu corpo começou a falhar.
Minhas mãos perderam força. Andar ficou difícil. Uma tontura intensa tomou conta de mim — junto com a estranha sensação de estar me observando de fora.
Na minha mente, perguntei a Deus o que eu tinha. Então surgiu um pensamento que não veio de mim e me instruiu:
“Abra o Google agora, que vai descobrir o que você tem.”
Peguei o celular. Sem pesquisar nada, a primeira notícia que apareceu era sobre uma atriz que acabara de ser diagnosticada com esclerose múltipla.
Naquele instante, eu soube.
O primeiro neurologista discordou. Como o tratamento que ele passou não estava fazendo efeito, senti que precisava buscar outra opinião.
Procurei uma outra neurologista — que anos antes já havia cuidado da minha mãe.
Mais uma vez a mão de Deus nos detalhes que eu nunca poderia ter planejado.
O diagnóstico foi confirmado.
Apesar de sentir muito medo, imaginando o pior cenário que poderia acontecer comigo, Deus já tinha preparado o meu coração.
Hoje, depois de passar por quatro tratamentos diferentes, a esclerose múltipla está controlada e mesmo ainda não tendo cura, sigo vivendo uma vida ativa.
Quando passei a me entender melhor
Depois de um surto de esclerose múltipla, tive minha memória e minha cognição um pouco afetadas.
Então decidi procurar uma neuropsicóloga para fazer uma avaliação.
Foi nesse momento que recebi mais dois diagnósticos: autismo grau 1 e TDAH.
Finalmente muita coisa fez sentido. A dificuldade de me encaixar.
A sensibilidade que parecia exagerada para todo mundo. A exaustão das interações sociais.
Os projetos que eu começava com garra e nunca terminava.
Pela primeira vez, percebi que nem tudo era culpa minha.
Escrever quando tudo ficou mais difícil
Sempre gostei muito de escrever. Depois da esclerose múltipla, porém, minha memória e cognição já não eram como antes. Ler e escrever passou a exigir mais esforço.
Mesmo assim, durante mais de dois anos, registrei frases que eu ouvia e que se encaixavam no momento em que eu me encontrava, reflexões, pensamentos e tudo que Deus estava fazendo na minha vida.
Sem perceber, eu estava escrevendo os livros que um dia chegariam às mãos de pessoas vivendo a mesma dor que eu vivi.
Em algum momento também percebi algo que nunca havia valorizado em mim: o dom da escrita.
Se não fosse pela escrita, não teríamos registros do que Deus e Jesus já fizeram.
E eu estava usando esse mesmo dom para que outras pessoas encontrassem esperança.
A virada que eu não planejei
Em uma virada de ano, cansada de tentar controlar tudo, tomei uma decisão diferente.
Entreguei o ano que viria completamente a Deus.
Sem listas de metas. Sem grandes planos. Sem tentar adivinhar o futuro, nem descobrir o meu propósito.
Foi como se na virada do ano eu “virasse a chave” para renovar a minha mente.
Decidi que eu dedicaria o ano seguinte para aumentar minha intimidade com Deus, confiando que Ele me mostraria seus planos no tempo dEle.
Também desejava ser uma esposa, mãe e filha melhor.
Por fim, decidi que cuidaria melhor do meu corpo, minha mente e meu espírito por meio da oração, leitura bíblica e reflexão da Palavra.
Naquele mesmo ano retomei o seminário teológico que eu havia interrompido devido a depressão e comecei um tratamento médico com antidepressivos.
Um tempo depois, me desafiei a enfrentar meus medos e junto com meu marido, abri minha casa para liderar um grupo de crescimento espiritual da igreja.
Até hoje isso me impressiona.
Eu — com fobia social — recebia várias pessoas em casa, todas as semanas, por quase um ano.
Cheguei a receber mais de 30 pessoas nos encontros. Eu não estava curada. Ainda lutava.
Mas continuava dando um passo de cada vez.
Foi nesse período que comecei a conhecer pessoas que também enfrentavam a depressão.
E, sem perceber, minha história começou a servir de inspiração e esperança para outras pessoas.
Os livros e o diário: Por que existem?
No meu primeiro livro: A Chave que Renova a Mente, falo sobre a renovação da mente — porque foi renovando minha mente que comecei a me libertar das prisões emocionais.
No segundo: A Verdadeira Identidade, falo sobre o resgate da verdadeira identidade em Cristo — porque a depressão tem um poder terrível de distorcer quem somos.
De nos fazer acreditar em mentiras sobre nós mesmos. Eu mesma acreditei nessas mentiras por décadas.
Depois de escrever os dois livros, sentia que ainda faltava alguma coisa.
Então, comecei a escrever o Diário de Reflexão Guiada na Depressão, com o objetivo de levar reflexões e te incentivar a avançar no processo de recuperação, mesmo que não tenha lido os livros.
É importante frisar que esses livros e outros conteúdos da Kainel não tem a intenção de substituir, tanto o diagnóstico, quanto o tratamento médico, psiquiátrico, psicológico e apoio religioso.
O objetivo é justamente o oposto: te incentivar a se conhecer melhor e a buscar ajuda especializada.
Por que nasceu a Kainel
Hoje sou formada em seminário teológico, tenho especialização em Neurociências pela UNIFESP e curso pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUCPR.
Mas a Kainel não nasceu por causa dos meus títulos. Ela nasceu depois de uma vida inteira de depressão.
Surgiu com a intenção de levar acolhimento, apoio e esperança baseada na Palavra de Deus até você.
Kainel, que significa renovação completa por Deus, representa tudo que Jesus fez em mim.
Ele sarou minhas feridas e me transformou, de pessoa ferida, para pessoa que cuida de pessoas feridas.
Eu criei a Kainel porque senti na pele o que você sente.
Sei que não é fácil, mas também sei que é possível!
Assim como a minha história foi transformada, creio que a sua também possa ser.
Você não está sozinha (o)
Se você se identificou com alguma parte dessa história, quero que saiba:
Você não está sozinha (o).
A depressão e o que você sente não define quem você é.
Desejo que a sua mente seja renovada e sua verdadeira identidade em Cristo seja resgatada.
Existe tratamento. Existe esperança. Existe um caminho.
Sua história ainda não terminou e a Kainel está aqui para te acolher, apoiar e encorajar.